VIVIAN FARIA PINTO DE ALMEIDA
A Paisagem cultural vista da casa branca: a criminalização do território popular, sua produção artística e cultural.
Trabalho de conclusão da disciplina
Geografia Política e Geopolítica no Continente Africano
do curso de Especialização em Ensino de Historia e Cultura
Africana e Afrobrasileira.
IFRJ, Campus Sao Gonçalo,
professor Marcelo Japiassu
SÃO GONÇALO
2012
A Paisagem cultural vista da casa branca: a criminalização do território popular, sua produção artística e cultural.
racismo + segregação social = remoções, invisibilização
Em 04/05/2009# foi lançado uma campanha, promovida pelo IPHAN especialmente para UNESCO# na qual a cidade pleiteia o titulo de Patrimonio da Humanidade na categoria paisagem cultural; o que significa ganhar um “selo de reconhecimento” pela “valorização da relação da ocupação humana com a paisagem, as formas com que o homem se apropriou e modificou a paisagem, recriando-a, ressignificando-a de maneira única e exemplar”
O produto audiovisual# de divulgação da campanha reflete o racismo e o preconceito presentes no processo historiografico da construção da imagem da cidade que, mesmo silenciosamente, nega o negro e o afrodescendente. A negação se faz clara se contabilizarmos os poucos segundos e pixels destinados a imagens das favelas do Rio; os angulos aéreos inventados para não capta-las: a imagem da cidade manipulada.
Texto do video, narrado pelo ator Wagner Moura.
“São Sebastião do Rio de Janeiro. A cidade foi fundada em 1565, com um único objetivo: ocupar e defender a Bahia de Guanabara.
Crescendo entre o mar, montanhas e florestas, com o passar do tempo a cidade desenvolveu caracteristicas que a tornam única no universo.
Entre o que foi a criação divina e a intervenção do homem, a paisagem cultural do Rio é fruto da associação de aspectos naturais singulares com interferências colonizadoras que ultrapassaram séculos e marcaram vários momentos da historia. Não somente a do Rio mas de toda a humanidade.
A cidade, que foi capital do Reino, do Império e da Republica, é hoje uma combinação de fatores naturais e humanos que conferem originalidade a sua historia.
- A vinda de D João VI pro Rio de Janeiro a aproximadamente 200 anos atrás, marcou um fato único na historia do mundo por que, nenhum rei europeu tinha pisado numa colonia. Portugal teve uma visão de grandeza de um pais como nação e se instalou no Rio de Janeiro, numa época em que o Rio de Janeiro era uma pequena cidade numa colonia. (Fala Dom João Orleans e Bragança)
Produto de muitos autores ao longo da historia, o Rio é uma cidade em constante criação.
Seu primeiro criador caprichou. E como caprichou. Alias quem nunca ouviu dizer que Deus é Brasileiro?
É sim. Brasileiro e carioca.
Não fosse isso verdade o Rio não seria o Rio, essa cidade maravilhosa cheia de encantos mil.
Mas a criação divina não foi única e teve alguns pupilos importantes: os cariocas.
- O Rio de Janeiro nunca seria o Rio de Janeiro sem os cariocas. O carioca teria que ser tombado também como patrimonio da humanidade. (Fala Dom João Orleans e Bragança)
Primeiro os cariocas índios, depois os cariocas portugueses, espanhóis, os cariocas africanos e ate mais recentemente os cariocas europeus, asiáticos; cariocas de todo Brasil e de todo mundo que optaram pelo Rio para viver. Ao longo de mais de quatro séculos eles deram sua contribuição para o que o Rio é hoje.
O Aterro do Flamengo tem o dedo de cariocas como Burle Max.
A Floresta da Tijuca é projeto de um autentico carioca francês, Monsieur Grazieau.
O Jardim Botânico foi criado pelo carioquissimo D. JoãoVI.
E assim, cariocas de todas as raças criaram o Corcovado, Cristo Redentor, os Arcos da Lapa, o Pão de Açúcar, o Aeroporto Santos Drumond.
É por isso que pode-se dizer sem medo de errar que Deus criou o Rio e os cariocas o recriaram
e o estão recriando a cada dia.
- Tanto na praia, na lagoa, no mato; o Rio tem essas trilhas deliciosas; você vai por aqueles matos mas tem sempre aquela trilha deliciosa da cidade, ali em baixo. Eu gosto de mato assim: sabendo que qualquer hora eu posso descer, pegar um táxi, tomar um chopp. (Fala Chico Buarque)
Esse Rio, admirado por todos que o visitam, cantado em prosa e verso, palco de grandes acontecimentos, amado por todos aqueles que aqui vivem, se candidata a Patrimonio da Humanidade na categoria Paisagem Cultural.
Mas o que é ser paisagem cultural?
De acordo com a definição da UNESCO é valorizar a relação da ocupação humana com a paisagem, as formas com que o homem se apropriou e modificou essa paisagem; recriando-a, ressignificando-a, de maneira única e exemplar.
Se é assim, que outra cidade, em todo o mundo, poderia ser considerado o exemplo mais bem acabado de paisagem cultural?
O Rio.
E só o rio.
Sua paisagem é reveladora na forma excepcional com a qual homem e a natureza devem se relacionar numa grande cidade.
O Rio é o berço do samba.
Aqui nasceu a bossa nova que ate hoje é cantada e admirada mundo a fora.
O Rio é a casa de um dos espetaculos mais impressionantes do planeta: o Carnaval carioca.
O Rio tem o sol e o produto mais bem acabado do sol, a garota de Ipanema.
Ser candidato a paisagem cultural ira resultar em formas de valorização da cidade que envolvam não somente as belezas naturais mas as pessoas; seu comportamento e sua relação com o outro, a cordialidade e o convívio das diferenças.REMOCOES?
Ser candidato a paisagem cultural reavida a auto estima carioca, valoriza o turismo, contem o crescimento desordenado; ser candidato a paisagem cultural atrai investimentos diretos e indiretos, acentua a preservação ambiental de monumentos e prédios urbanos e amplia o enorme prestigio internacional que o Rio já possui
- O Rio de Janeiro sintetiza o Brasil. O Brasil com a diversidade ambiental, com a exuberancia da natureza, com a arquitetura de todas as suas épocas, de todas as suas idades. (Fala Dom João Orleans e Bragança)
- Realmente, o Rio é uma cidade fantástica, bonita, agradável, boa de viver, não é? O povo carioca sabe usufruir disso tudo, ele vai a praia, se diverte; a cidade é alegre. O Rio é uma cidade fantástica, que dispensa comentários.
Rio de Janeiro: cidade candidata a patrimonio da humanidade na categoria paisagem cultural.
Com tantos atributos, com tanto merecimento nem seria preciso desejar boa sorte. Ainda assim, boa sorte Rio.”
Todo o texto nos coloca uma grande variedade de possibilidades e questionamentos a cerca da imagem que é fabricada para caracterizar o Rio .
Destaco alguns trechos que demonstram e ratificam o processo de invizibilização do negro, a negligenciação de sua participação na construção dessa “grande obra”.
“Primeiro os cariocas índios, depois os cariocas portugueses, espanhóis, os cariocas africanos e ate mais recentemente os cariocas europeus, asiáticos; cariocas de todo Brasil e de todo mundo que optaram pelo Rio para viver. Ao longo de mais de quatro séculos eles deram sua contribuição para o que o Rio é hoje.”
- Esse fragmento exemplifica a tentativa de homogeneização da nação, bem como a negação da historia do negro africano que escravizado nao teve real opçãp de escolha sobre o lugar que viveria.
“O Aterro do Flamengo tem o dedo de cariocas como Burle Max.
A Floresta da Tijuca é projeto de um autentico carioca francês, Monsieur Grazieau.
O Jardim Botânico foi criado pelo carioquissimo D. JoãoVI.
E assim, cariocas de todas as raças criaram o Corcovado, Cristo Redentor, os Arcos da Lapa, o Pão de Açúcar, o Aeroporto Santos Drumond. “
- Ênfaze aos feitos relacionados a etnias brancas enquanto os africanos e afro-brasileiros têm seu protagonismo subentendido em “todas as raças”
“De acordo com a definição da UNESCO é valorizar a relação da ocupação humana com a paisagem, as formas com que o homem se apropriou e modificou essa paisagem; recriando-a, ressignificando-a, de maneira única e exemplar.”
- Centro da questão geopolitica nesta discussao: a ratificação violenta da negação e invisibilização da população das regioes subnormais da cidade.
Do orgulho de ser brasileiro
“(...) a cultura e o folclore são meus, mas os livros foi você quem escreveu”
Nativus
O Brasil é, como muitos outros, um pais que teve sua historia manipulada; como a maioria das historias ditas oficiais. Um marco desse processo de “feitura” historiografica foi construção do Instituto Geográfico Brasileiro (IHGB), fundado em 1838 “da aspiração de uma entidade que refletisse a nação brasileira”#, coordenando e direcionando a narrativa que conta nosso o passado, legitimando mitos sobre sua criação.
Uma das primeiras ações do instituto foi a realização de um concurso para encontrar a melhor forma de construir a historia e a nacionalidade brasileira. Como se deve escrever a história do Brasil, de Carl Friedrich Philippe von Martius, foi o projeto vencedor, um dos pilares encomendados para compor nossa identidade nacional.
Criado logo após a independência política do país, o estabelecimento carioca cumpriria o papel que lhe fora reservado, assim como os demais institutos históricos: construir uma história da nação, recriar um passado, solidificar mitos de fundação, ordenar fatos buscando homogeneidades em personagens e eventos até então dispersos (Lilia Moritz Schwarcz, 2002: 30).
A partir do olhar sobre a construção da nação direcionamos o foco na forja da identidade cultural brasileira que, a partir do século XX; é também moldada e disseminada por artistas e pensadores que alimentaram esse imaginário com mitos como o de grande “caldeirão cultural”; que idealiza uma falsa unidade, homogeneidade que soterra o protagonismo do negro em nossa historia.
A forja
Cito Gilberto Freyre, e sua obra “Casa Grande e Senzala” que, a pesar de atualmente ser questionada por historiadores, foi há muito louvada e tida como bibliografia para adquirir pleno entendimento sobre a formação da sociedade brasileira.
A obra, ícone dos clássicos da literatura brasileira, colaborou em muito para a disseminação uma ideia romântica de mestiçagem no mito de fundação da nação brasileira no imaginário coletivo e popular - aqueles que, de fato, criaram nossa cultura. A miscigenação que, de acordo com o romance, teria se dado natural e pacificamente; apresentou a nação como uma grande “mistura homogenea” - fruto do encontro harmonioso entre tres raças - mito fundador principal - que, sutilmente, invisibiliza e marginaliza o cidadão brasileiro afro-descendente; negligenciando seu protagonismo social e cultural na composição e construção de nossa historia e sociedade.
E é essa “maioria” (conforme os números iliustram abaixo) que sustenta os alicerces dessa nação e, sem romantismo algum, é a principal responsável pela nossa identidade cultural - dentro e fora do pais. Afinal, o samba e o funk são os produtos culturais que dão a cara e o tom da nossa nação; criados por africanos e afro descendentes em solo brasileiro; movimentos culturais historicamente perseguidos.
Por eles, mudemos a escala de pais para cidade.
“RIO: A CIDADE MAIS CORDIAL DA TERRA
Por suas inúmeras facetas, o Rio é a capital do turismo brasileiro. A cidade maravilhosa, localizada na Região Sudeste do Brasil, com 6 milhões de habitantes, numa área de 1.224,56 km², extensão litorânea de 246, 22 km² e área verde de 325,6 km², é um mosaico de encantos espalhados entre o mar e a montanha. O Rio é mais de um, a cada dia cria soluções para atender a todos os desejos e gostos. “#
Abaixo o gráfico da população do município, discriminada por cor ou raça.
Fonte IBGE, Censo 2010
Abaixo, discriminada por domicilio em regiões de aglomerados subnormais, a proporção da ocupação populacional. (Instituto Pereira Passos/ Armazém de dados do Rio de Janeiro)#
FONTE IPP
Os gráficos nos dão um panorama da ocupação urbana e reflexo das relações geopolíticas deste território que, “historicamente é palco para invenção da nacionalidade brasileira” (FACINA,2010).
Atualmente a cidade, “vendida” por seus governantes como a “capital do turismo brasileiro”, é conhecida mundialmente por sua geografia excepcionalmente bela e por sua cultura popular.
De acordo com os dados do IBGE, 48.8% da população do município declara-se como preta, parda, amarela ou indígena. Essa parcela, marginalizada pelo Estado e elite social, composta em sua maioria de cidadãos negros e afrodescendentes, localiza-se geograficamente em morros e áreas de aterramento de mangue do Rio de Janeiro; a margem da rota do turismo comum. Essas regiões são definidas e contabilizadas pelo IBGE como “favelas”, “ aglomerado subnormal” ou “subregiões urbanas”.
FONTE: PORTAL GEORIO
IPP/ PORTAL GEORIO
O mapai lustra de forma clara a segregação social da cidade, onde podemos observar que as zonas Centro e Sul da cidade (RA’s 1, 2, 3, 4, 5, 6, 21 e 23) tem menor extensão de sua superfície ocupada por favelas.
O Rio de Janeiro, que será palco de mega eventos esportivos, esta sendo loteada e repartida entre empresários poderosos. A renda nunca foi tão explicitamente concentrada e os limites fronteiriços entre ricos e pobres estreitam-se com as retomada da pratica de Remoções - procedimento “civilizatorio” higienista resgatado do século passado.
Qual cuidado o Estado esta tendo com essa camada da população?
Ao lançamos um olhar sobre a pratica das ações de políticas publicas em determinados territórios na cidade do Rio de Janeiro podemos observar uma relação direta e clara entre a criminalização da camada/territorio popular pelo Estado, bem como de sua produção artística e cultural.
Nessa cidade onde o racismo é tido como inexistente, os gráficos demonstram a relação da população negra e sua ocupação territorial. Os principais questionamentos deste trabalho giram em torno da (também histórica) criminalização do território, seus ocupantes e sua produção cultural.
Considerando a cultura Africana fundamental na constituição do mundo moderno ocidental, mas situada com toda violência a sua margem, essa cultura tem origem híbrida nas viagens de antigos navios. Musica, dança e estilo são as marcas dessa cultura que desafia as fronteiras dos estados-nação com seus padrões de ética e estética. Disseminação é a forma de sua trajetoria. Diasporico é o estilo de sua identidade que só pode ser entendida no plural. (GILROY, 2001)
A arte singular que nos é conferida pelo encontro dos tambores com as flautas e cordas, produzida pelo afrobrasileiro - carioca - morador de favela, é sequestrada, “embanquecida”, privatizada e vendida como atributo da cidade que tenta a todo custo invisibilizar os reais produtores culturais que ha muito fazem o Rio ser o Rio.
O mito das três raças torna-se plausível e pode se atualizar como ritual. A ideologia da mestiçagem, que estava aprisionada nas ambigüidades das teorias racistas, ao ser reelaborada, pode difundir-se socialmente e se tornar senso comum, ritualmente celebrado nas relações do cotidiano, ou nos grandes eventos como o carnaval e o futebol. O que era mestiço torna-se nacional ( ORTIZ 1985: 41).
A relação entre a geografia e a politica no rio de janeiro, a negação das camadas populares e tudo o que se relaciona a ela, parecem fazer parte de uma esptrategia historica de gestao publica.
Ha muito violência esta em toda parte mas ha tambem a criminalizacao de um território especifico e seus moradores: no mapa simbólico da cidade a política de enfrentamento ao crime tem endereço certo. Marginalizando seus ocupantes, seu modo de vida e consequentemente, sua produção cultural, a política no Rio de janeiro como ação institucional do estado é a repressão dos pobres.
“Eu so quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci” Mc Cidinho e Doca
A favela é num território onde qualquer sinal de orgulho demonstrado por seus moradores de ser o que se é, é tido como desacato as autoridades policiais.
É dentro dessa cartografia sutil e bem delimitada, mesmo sujeitos a toda vilolencia e barbarie que o Estado os destina numa tentativa de controle por criminalização e repressao; que surgiram os movimentos culturais que são a cara do Brasil.
Bibliografia
Facina. Adriana 2010 "Eu so quero é ser feliz": quem é a juventude funkeira do rio de janeiro? REVISTA EPOS, RIO DE JANEIRO - RJ VOL 1 N 2.
Gilroy, Paul. Atlantico negro, 2001 Sao Paulo/ Rio de Janeiro, Editora 34 UCAM - Centro de EStudos Afroasiaticos.
Martius, Karl Friedrich Philipp von 1991 [1844]. Como se deve escrever a história do Brasil. Rio de Janeiro, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
Ortiz, Renato 1985. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo, Brasiliense.
Schwarcz, Lilia Moritz 2002. O espetáculo das raças. São Paulo, Companhia das Letras.
Internet
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